terça-feira, 30 de junho de 2009

11 - Luau de Camarões em Itamaracá

Minha mulher e estávamos no vôo para João Pessoa naquele verão de início de 1999 para passar duas semanas naquela região maravilhosa do Nordeste. Durante o voo, me lembrei e contei a ela sobre um episódio ocorrido na casa de uma tia de Recife. Minha tia preparara, especialmente para minha visita, uns pequenos moluscos que, segundo ela, eram tirados de raríssimas conchinhas em miniatura, um a um. Depois eram cozidos com especiarias e leite de coco. Rendiam uma generosa porção de um pouco mais que uma xícara de leite, pois era um prato delicado. Segundo ela, era sua especialidade mais especial. Quanta honra!!! Não me lembro do nome dos molusquinhos, mas não eram o conhecido sururu, disso eu tenho certeza. Esse cara tinha um nome diferente!
Caro leitor, antes que me chame de enjoado, juro que já tentei comer peixes e frutos do mar em outras ocasiões, mas não desce nem com lubrificante. Já passei muitos constrangimentos e bermudas justas por conta disso. Como não poderia deixar de ser, dei o maior vexame com a minha tia. Queria ser um avestruz para enfiar a cabeça no ralo da cozinha e ficar lá até 2023... ou até ela esquecer dessa minha desfeita e me perdoar.

O avião desceu. Chegamos em Bayeux e fomos direto para o hotel, que superou nossas expectativas de tão agradável e organizado. Fica na Praia de Tambaú.
Chegamos e logo liguei para um tio que mora em João Pessoa e para a minha tia de Recife, a prendada cozinheira dos frutinhos do mar ao leite de coco. Quem atendeu foi minha prima, que assim como meu tio, comentou sobre um luau com churrasco de camarões que minha tia havia feito na sua casa na Ilha de Itamaracá, na beira da praia, com muitas frutas e frutos do mar pescados na hora pelos caiçaras com rede de arrastão. Mais tarde, liguei novamente para casa da tia e o primo atendeu... e ele também contou do tal luau legal. Na terceira tentativa, à noite, consegui falar com a minha tia. Vcs adivinhem, qual foi o meu comentário infeliz? "Putz, tia. Que luau maravilhoso é esse que vc fez que está todo mundo comentando. Deve ter sido maravilhoso, não?" E ela respondeu, de pronto, na maior simpatia inerente às tias: "Venha para Recife no final de semana que eu vou preparar um luau de camarões igual para vc e sua esposa. Vcs vão adorar". Pensando na bobagem que eu havia dito, tentei escapar: "Não precisa se preocupar, tia". Mas não teve jeito: "Fábio, eu faço questão. Está decidido. Vcs vêm para cá no final de semana".

Puuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuta que pariu... eu e minha boca enorme que não sabe ficar calada!!! Não é por desfeita, mas não consigo comer peixe!!! E agora?!!
A semana passou voando e, no sábado, chegamos a Recife. De lá, rumamos a Itamaracá. No caminho, paramos em Igarassu, comemos alguma coisa e conhecemos a Igreja de São Cosme e São Damião, de 1535. A mais antiga do Brasil em atividade. Recentemente, li que foi restaurada. Já em Itamaracá, caminhamos pela orla, estivemos no Forte Orange e, de barco, fomos até a Ilha da Coroa do Avião, um banco de areia com uma cabana.
A noite da sentença caiu rápida. A todo instante eu ouvia os comentários que a churrasqueira estava pronta e que os pescadores já se preparavam para puxar a rede repleta de camarões e outras criaturas marinhas. Qual seria a minha pena? Camarões? Peixes? O que a rede traria para minha condenação por abrir a bocona na hora errada?
Chegaram os meninos com a rede. Caminharam pela areia até a churrasqueira com o veredito nas mãos. "Dona, não veio nada. Só esse camarãozinho preso aqui, ó... mais nada. Andamos um tempão pelo mar e é só isso que tinha. Vamos tentar mais uma vez".
Meu, não acreditei... eu recebi uma segunda chance e estava próximo da absolvição. E, quando os pescadores voltaram, nada novamente. Minha tia ficou profundamente chateada e voltamos para a casa, onde haviam só frutas da terra. Comi, comi, comi. Comi até a jaca e passei mal mas passei mal feliz. Obrigado, Papai do Céu. Que me perdoem os amantes do camarão mas eu, realmente, não consigo comer!!!
Caro leitor, essa foi o último post sobre minhas frustrações gastronômicas. Nem sou tão enjoado assim, vai... Adoro um gorgonzola daqueles bem molhadinhos, como camembert até a última casquinha branca, sou maluco por carpaccio e eu sei que alguns dos meus leitores têm asco disso. Então, estamos quites e não fiquem tão indignados com essa minha repulsa por coisas marinhas.
Moral da história:
Em boca fechada não entra mosquito e nem camarão!!!

3 comentários:

Joias da Família disse...

Puxa... e eu tô esperando os camarõezinhos até hoje...

Marco disse...

Olha, Dom Ratto...
Não comer moluscos ou crustáceos não é vergonha nenhuma. Eu nunca gostei de aves. Não como, mas nem no palácio de Buckingham. Já passei alguns perrengues por recusar em casa de amigos. mas não como, não adianta. Hoje em dia sou vegetariano, o que até facilita as coisas.
Já estive em Igarassu. Ei, a igreja de São Cosme e São Damião é de 1535!!
Sobre os famosos camarões, pois é, eu gosto. E cairia dentro, de boca, nessa camarãozada!
Carpe Diem.

Rato Elétrico disse...

Nossa Marco. Vc tem razão. Rejuvenesci o templo em quatro séculos. Corrigido.

Em tempo: Nessa última quarta-feira, 26.08.09, fui convidado para um almoço em uma marina de Porto Alegre. Pensei: Dez anos depois e o pesadelo cíclico de cada década estava de volta. Felizmente, a comida era deliciosa e bem servida de vaquinhas e franguinhos, além dos peixinhos, é claro!!!